sábado, 29 de março de 2008

Radiohead - "OK Computer" (1997)

12.03.08

Abril de 1997. O mundo como conhecemos ainda não existia. Era outro, com uma diferente cadência, os limites ainda intactos e uma leve névoa de mesmice tornando difícil enxergar o que era mesmo bom ou ruim. No ar sentia-se que alguma coisa estava sendo tramada por baixo dos panos. Tudo ali, a dois palmos dos nossos narizes. O primeiro dia do mês seguinte comprovaria essa estranha sensação.
Londres certamente acordou chuvosa naquele dia. Não apenas porque o mais normal na capital inglesa seja mesmo chover, mas para entrar no clima do que apareceria logo a seguir. Uma das bandas mais conhecidas do britpop na época, o Radiohead, lançaria naquele dia um disco que a colocaria muito acima do britpop. Acima mesmo de outros artistas da época.
Ouvir “OK Computer” com atenção é sempre uma experiência interessante, pela quantidade de camadas sonoras e literárias sobrepostas em todas as músicas. Cada nota, ruído ou pausa está lá por uma razão, e parece impossível imaginá-los amarrados de forma diferente. Ambos retratam angústia, depressão e inquietude de um ser humano diante do mundo que o cerca. O álbum retrata o ódio de vários personagens diante do mundo de final de Século, em que o maquinário corporativo e comercial soterra a individualidade, forçando-nos a nos enquadrar num comportamento robótico, insípido e profissional. Munindo-se de milhares de aparatos que seriam supostamente necessários para o viver corretamente, o homem se enclausura de tal forma que acaba por não reconhecer a si mesmo e aos que o rodeiam. Na perspectiva de “OK Computer” a sociedade está doente, sofrendo do mal da não convivência e da rendição às máquinas em detrimento dos sentimentos. Uma sociedade que não comunga entre si, já não poderia nem mesmo ser chamada de sociedade.
Começando por "Airbag", com seu andamento paranóico, baixo entrecortado, efeitos eletrônicos esquisitos, e que possui uma letra estranha em que Thom Yorke fala de uma de suas fixações (ligada diretamente com aquela do dia-a-dia do homem moderno): acidentes de carro. "In a fast german car, I'm amazed that I survived, an airbag saved my life", canta ele no final da música. Não é a primeira música do Radiohead que usa esse tema.
Doçura e estranheza se misturam com mais potência na próxima faixa, a histórica “Paranoid Android” é inteira uma trilha-sonora para os sonhos que atormentam. Nenhuma canção consegue ser ao mesmo tempo sutil e nervosa como esta. Os efeitos continuam com toda a força. Fracionadas em diversas magníficas canções e unidas ao final em uma só, “Paranoid Android” é a mais fácil tradução do próprio "Ok Computer".
"Subterranean Homesick Alien" é musicalmente uma das faixas mais interessantes do disco. Ao longo dela, guitarras alteradas por vários efeitos denotam vozes alienígenas conversando entre si, uma ilustração lúdica do sentido real do "alien" na música: um homem totalmente deslocado do ambiente que pode chamar de "casa". Provavelmente uma alusão explícita à canção de Bob Dylan "Subterranean Homesick Blues", que diz: "Jhonny's in the basement mixing up the medicine, I'm on the pavement thinking about the government". Ao seu fim, inicia-se a mais desesperançosa música de que se tem notícia. “Exit Music (for a film)” dói. Na alma, nos ossos, nos olhos vermelhos, enquanto a letra implora, "Breathe, keep breathing". Seu final apoteótico assusta. Objetos cortantes devem ficar longe.
Após atingir o fundo, a montanha-russa de sentimentos sobe uma vez mais com “Let Down”. Emocionante, crescente, harmoniosa, ela revela um lado mais positivo do disco. “Karma Police” é um clássico. O anormal deve ser detido, já que deixa as coisas fora da ordem. A base do piano dá a cadência necessária para o desespero final de Yorke ao admitir que apesar de todos os seus esforços, não consegue encontrar o encaixe para passar no teste de normalidade.
Ao final de "Karma Police", a sirene sobrenatural distorcida pelo efeito Doppler exagerado dá lugar a "Fitter Happier", trazendo a voz inexpressiva e monotônica sutilmente introduzida ao fundo do refrão de "Paranoid Android" (ouça novamente a faixa 2: "What's that? [I may be paranoid, but not an android]"). As promessas introspectivas de cuidar melhor de si próprio, mas obviamente nunca cumpridas, entrecortada sublinarmente com ruídos e música de piano, é como se víssemos alguém sendo claramente hipnotizado, a ponto de confundir as promessas metálicas com as suas próprias. "Elecioneering" é uma canção que discorre sobre o vai e vem da política, e do poder da mídia, que nada mais é que um meio para divulgação da linguagem. Repare no clima festivo da melodia, única do disco com essa característica. Uma crítica à sociedade da época que continua valendo, travestida em um empolgante rock de guitarras rasgadas. É certamente o lado mais alto-astral do grupo neste lançamento de 97. Tudo para preceder a congelante “Climbing Up the Walls”, de refrão doce, mas que parece se perder em sua parte final entre distorções e leves efeitos eletrônicos.
“No Surprises” é minimalista ao máximo. Contradição? Possivelmente, a música mais triste do álbum, o principal instrumento é a voz de Thom Yorke e um clima quase infantil na junção dos demais instrumentos. A história de como uma vida dentro dos padrões pode acabar mal. Acomodar-se afinal de contas pra quê?
As duas últimas faixas de "Ok Computer" também são capazes da difícil tarefa de traduzir todo um álbum. As músicas “Lucky” e “The Tourist” são uma colagem de momentos de catarse e de sossego aparente, que se alternam quando bem entendem. Para o fim do disco, nada mais do que um barulho que vai sumindo, sumindo, sumindo.
O Radiohead abusou da liberdade para criar uma obra-prima. “OK Computer” é isso. Indispensável. Tal qual a verdade.

>Duas músicas que salvam a hora: "Paranoid Android" e "Karma Police"

>Para escutar: http://www.mediafire.com/?1xtbgb1bycz


Queen - "A Night At The Opera" (1975)

11.03.2008
O ano era 1975, naquela época gigantes caminhavam sobre a Terra, ou assim parecia.. O Queen já havia lançado três trabalhos convincentes (“Queen”, “Queen II” e “Sheer Heart Attack”), que não só mostravam todo o enorme talento musical individual de seus integrantes, o inesquecível Freddie Mercury (vocal), o mestre Brian May (guitarra) e os eficientes John Deacon (baixo) e Roger Taylor (bateria), como também uma forte personalidade musical, um estilo muito peculiar de se fazer música. E essa peculiaridade teve o seu ápice, justamente em “A Night At The Opera”.
Este disco exala grandiosidade por todos os poros ao mesmo tempo em que demonstra inteligência nos detalhes, em soluções como um timbre diferente aqui, um recurso de estúdio inusitado ali ou uma linha melódica bem trabalhada acolá. Gravado em sete estúdios por três meses, foi o disco mais caro já produzido até então. Não é à toa que vendeu mais de 10 milhões de cópias no mundo todo e sempre aparece nas listas de melhores de todos os tempos.
Trazendo, mais do que qualquer trabalho anterior da banda, a interessante fórmula sonora que mesclava Rock com Ópera, “A Night At The Opera” foi, é, e sempre será um álbum histórico, uma verdadeira ebulição criativa. Produzido com maestria, o trabalho traz os músicos em plena forma: Freddie Mercury mostra todo o seu talento em impecáveis interpretações, onde traz lirismo a sua pegada Rock, Brian May executa alguns de seus “riffs”, temas e solos inesquecíveis, com seu estilo sempre instantaneamente reconhecível e John Deacon e Roger Taylor demonstram precisão e entrosamento perfeito.
O disco começa com "Death on Two Legs" com guitarras agudas e sons de trilha de filme B de ficção científica. A partir daí passamos por country ("'39"), som de musical dos anos 30 ("Seaside Rendevouz"), pop doce ("You're My Fest Friend"), hard rock ("I'm In Love With My Car"), rock progressivo ("The Prophet Song"), glam rock/heavy metal ("Sweet Lady").
“Love Of My Life”, cuja versão ao vivo chegaria ao primeiro lugar no Brasil (um dos melhores mercados e públicos do Queen) e digna de figurar na coletânea Greatest Hits.
Imagine um disco excelente que é fechado, simplesmente, pela canção eleita na Inglaterra como a melhor do século. “Bohemian Rhapsody” é uma daquelas peças que não merecem menos que o título de obra-prima. Falar dela é cair no lugar comum e em adjetivos que não conseguem expressar o impacto que causou no mercado fonográfico mundial à época de seu lançamento.
Iniciando apenas com vocais e piano ao melhor estilo do grupo, abusando do estéreo em toda a faixa, “Bohemian Rhapsody” tem uma letra que se propõe a contar uma história trágica. Todas – e são todas mesmo – as características que fizeram do Queen um dos grandes nomes do rock estão lá, da suavidade de versos sussurrados por Freddie Mercury como “Nothing really matters, nothing really matters to me, anyway the wind blows...” aos gritos de “So you think you can stone and spit my eyes”, o excelente trabalho de bateria onde os pratos se destacam em climas mais densos de Roger Taylor, o baixo Fender Precision sem firulas e exato de John Deacon e, acima de tudo, com os vocais de Mercury, a guitarra de Brian May.
O final, na verdade, do disco é uma vinheta instrumental com toda a pompa e circunstância protocolares, onde o Queen dá sua versão do hino britânico, “God Save The Queen”. Tal qual uma noite de gala no Royal Albert Hall.

>Duas músicas que salvam a hora: "Love Of My Life" e "Bohemian Rhapsody"

>Para escutar: http://www.mediafire.com/?5jno9bmxz2k


segunda-feira, 24 de março de 2008

Pullovers E Geanine Marques - "Carniça" (2004)

10.03.08
Não faz muito tempo que lançar disco independente no Brasil significava falta de condição financeira para bancar todas as etapas de um trabalho profissional. Hoje tudo mudou. Ser independente é prezar pela liberdade de criação e ter controle de todo o processo de gravação.
Porém, pretensão é uma palavra manca no meio indie nacional. Quando bem usada, com inteligência, criatividade e perspicácia, ela é capaz de proporcionar belos momentos. Poucos se utilizam desse caminho. Um dos poucos é o Pullovers, que agora se juntou à cantora e modelo paranaense Geanine Marques para fazer uma espécie de ópera-rock de personagens desprezados pela luz do dia. O submundo de sexo, drogas e estilos de vida alternativos é radiografado com humanidade e perfeição pelo grupo paulista, que continua fazendo um barulho pop de primeira, repleto de melodias grudentas e letras curtas (às vezes com apenas dois ou três versos), no entanto eficazes.
Pergunta: seria essa uma tentativa tupiniquim de homenagear o Velvet Underground e Nico?

>Duas músicas que salvam a hora: "Perfect Man I" e "When I'll Learn To Drive"

>Para escutar: http://www.mediafire.com/?bmdddmtjqla

The Police - "Every Breath You Take - The Singles" (1988)

07.03.08
O Police surgiu em 1977, sob o apadrinhamento do empresário Miles Copeland, irmão de Stewart. Sting, Copeland e Summers (que substituiu o francês Henry Padovani, um mestre na arte da guitarra mal tocada) eram artistas de rock progressivo, jazz e blues. Aderiram ao punk porque era o ritmo da moda. "Qualquer melodia mais elaborada fazia Miles espumar de raiva", lembrou Sting, numa entrevista recente. Foi a qualidade instrumental do trio que fez com que se destacasse. Canções como “Roxanne”, “Walking on the Moon” e “So Lonely”, presentes nos dois primeiros discos, têm influências de bossa nova e reggae, gêneros que não faziam parte do cardápio musical dos punks. Além disso, Sting possuía uma habilidade rara para criar canções de apelo pop, com letras inteligentes e refrãos eficientes. Copeland e Summers estão longe de ser virtuoses, mas influenciaram duas gerações de instrumentistas.
Brigas fazem parte da mitologia do rock. São provocadas por drogas, dinheiro, egos inflados ou pelo simples "desgaste de relacionamento" entre músicos. As principais brigas no Police aconteceram entre Sting e Copeland. São duas personalidades fortes – o baixista é egocêntrico, Copeland é explosivo e detém os direitos do nome da banda. O sucesso e os milhões na conta bancária agiram como catalisadores. Uma das piores brigas da dupla aconteceu em 1983, quando Copeland teria quebrado duas costelas do companheiro com uma cadeirada. "Uma cadeira? Nada disso, no máximo uma banqueta", diz Copeland. O trio se separou definitivamente três anos depois e seus integrantes “juraram” nunca mais dividir um palco.
A compilação lançada pela Polygram nos anos 80 deixa bem claro como o Police conseguiu deixar órfãos pelo mundo, e como a turnê de retorno tornou-se a mais lucrativa de 2007. Boa parte do público comparece aos shows movida pela pura nostalgia.

>Duas músicas que salvam a hora: "So Lonely" e "Every Breath You Take"

>Para escutar: http://www.mediafire.com/?zzgnd21wxy5


domingo, 16 de março de 2008

Prefab Sprout - "Steve McQueen" (1985)

05.03.08
Outro disco que me traz boas lembranças, apresentada pelo Du, que por sua vez tinha conhecido pelo seu irmão. O Prefab Sprout foi uma dessas bandas que passaram batidas no Brasil. Nem "When Love Breaks Down", uma das mais belas baladas da década de 80, conseguiu emplacar, mostrando que definitivamente esse é um país singular em termos de gostos. Mas se aqui o Prefab não emplacou, na Inglaterra virou mania a ponto dos famosos críticos ingleses colocarem o disco entre os 100 melhores álbuns da história.
O disco é uma verdadeira coleção de cenas cinematográficas, referências de todo tipo, dramas, romances, e certa desilusão. A juntar-se ao manancial, os teclados, datadíssimos nos anos 80, é parte fundamental da composição.
Por problemas com a família do ator norte-americano já falecido, a edição nos Estados Unidos teve o nome mudado para “Two Wheels Good”, inspirado no livro “1984” de George Orwell.

>Duas músicas que salvam a hora: "Faron Young" e "Bonny"

>Para escutar: http://www.mediafire.com/?jttbijustvk


segunda-feira, 10 de março de 2008

Primal Scram - "Screamadelica" (1991)

04.03.08
Continuando em 91, “Screamadelica” foi o ponto de partida para a geração raver despertar. O disco de sugestivo título tem batidas eletrônicas indefiníveis, guitarras em profusão, vocais próximos do gospel e um gosto amargo de pastilha. A banda de Bobby Gillespie, batera no clássico “Psychocandy” do Jesus & Mary Chain, inaugurava naquele momento a segunda revolução de costumes jovem em território britânico, ao reler o flower power e reprocessar a mensagem de união dos homens em prol da liberdade de consciência. Nada melhor para ilustrar tal mensagem que batidas hipnóticas e vocais desleixados, quase chapados em álbum que beira o mântrico. A expansão da consciência pregada nos anos 60 era agora recriada nos clubes regada a lasers, estrobo e ecstasy com trilha fornecida por bandas como o próprio Primal Scream, Happy Mondays e Stone Roses. Essas bandas, todas filhotes da música independente, eram chamadas de indie dance ou "rock de franjinha".
A gravação foi feita em apenas seis semanas e captura uma banda em seu pico de criatividade. Com o sucesso deste que foi seu primeiro álbum lançado nos Estados Unidos, o Primal Scream tocou até no Japão. Em 1991, foi eleito melhor álbum pelo semanário inglês Melodie Maker e no ano seguinte ganhou o prêmio Mercury Music – então em sua primeira edição – de banda britânica do ano.
Os clubbers descansam e repõem as energias debaixo das emanações de lava lamps depois deste álbum.

>Duas músicas que salvam a hora: "Movin' On Up" e "Come Together"

>Para escutar: http://www.mediafire.com/?ggttyzapou1

domingo, 9 de março de 2008

Faith No More - "Live at Brixton Academy" (1991)

03.03.08
Foi no início da década de 90 que despontou para o estrelato uma das bandas mais significativas e originais daquela década. O Faith No More é ainda objeto de culto de muita gente, que contagiada pelas performances do “frontman” Mike Patton, seguem mantendo a chama do grupo acesa através da referência de seus seis álbuns e de projetos dos membros remanescentes.
O álbum ao vivo de 1991, "Live At The Brixton Academy" foi um sucesso absoluto de vendas em termos mundiais, aproveitando toda excelente fase que gozavam após “The Real Thing” ter estourado. Com as músicas tocadas mais rápidas e furiosamente que em suas versões de estúdio, incluindo a versão para "War Pigs" do Black Sabbath que se tornaria uma marca registrada do Faith No More desde então.
Por alguns discos você tem um carinho especial. Este, por exemplo, me lembra das temporadas na Cocanha, praia de Caraguatatuba – SP. Qualquer feriado era motivo para descermos a Serra e ficar por lá. É claro que outros sons faziam parte da nossa trilha sonora litorânea, mas cantar no final de “Epic” o cover do Technotronic só quem esteve por lá entende: ”Make my day/ Make my day...”.

>Duas músicas que salvam a hora: "Epic" e "From Out Of Nowhere"

>Para escutar: http://www.mediafire.com/?sbjlj9xmggz