Abril de 1997. O mundo como conhecemos ainda não existia. Era outro, com uma diferente cadência, os limites ainda intactos e uma leve névoa de mesmice tornando difícil enxergar o que era mesmo bom ou ruim. No ar sentia-se que alguma coisa estava sendo tramada por baixo dos panos. Tudo ali, a dois palmos dos nossos narizes. O primeiro dia do mês seguinte comprovaria essa estranha sensação.Londres certamente acordou chuvosa naquele dia. Não apenas porque o mais normal na capital inglesa seja mesmo chover, mas para entrar no clima do que apareceria logo a seguir. Uma das bandas mais conhecidas do britpop na época, o Radiohead, lançaria naquele dia um disco que a colocaria muito acima do britpop. Acima mesmo de outros artistas da época.
Ouvir “OK Computer” com atenção é sempre uma experiência interessante, pela quantidade de camadas sonoras e literárias sobrepostas em todas as músicas. Cada nota, ruído ou pausa está lá por uma razão, e parece impossível imaginá-los amarrados de forma diferente. Ambos retratam angústia, depressão e inquietude de um ser humano diante do mundo que o cerca. O álbum retrata o ódio de vários personagens diante do mundo de final de Século, em que o maquinário corporativo e comercial soterra a individualidade, forçando-nos a nos enquadrar num comportamento robótico, insípido e profissional. Munindo-se de milhares de aparatos que seriam supostamente necessários para o viver corretamente, o homem se enclausura de tal forma que acaba por não reconhecer a si mesmo e aos que o rodeiam. Na perspectiva de “OK Computer” a sociedade está doente, sofrendo do mal da não convivência e da rendição às máquinas em detrimento dos sentimentos. Uma sociedade que não comunga entre si, já não poderia nem mesmo ser chamada de sociedade.
Começando por "Airbag", com seu andamento paranóico, baixo entrecortado, efeitos eletrônicos esquisitos, e que possui uma letra estranha em que Thom Yorke fala de uma de suas fixações (ligada diretamente com aquela do dia-a-dia do homem moderno): acidentes de carro. "In a fast german car, I'm amazed that I survived, an airbag saved my life", canta ele no final da música. Não é a primeira música do Radiohead que usa esse tema.
Doçura e estranheza se misturam com mais potência na próxima faixa, a histórica “Paranoid Android” é inteira uma trilha-sonora para os sonhos que atormentam. Nenhuma canção consegue ser ao mesmo tempo sutil e nervosa como esta. Os efeitos continuam com toda a força. Fracionadas em diversas magníficas canções e unidas ao final em uma só, “Paranoid Android” é a mais fácil tradução do próprio "Ok Computer".
"Subterranean Homesick Alien" é musicalmente uma das faixas mais interessantes do disco. Ao longo dela, guitarras alteradas por vários efeitos denotam vozes alienígenas conversando entre si, uma ilustração lúdica do sentido real do "alien" na música: um homem totalmente deslocado do ambiente que pode chamar de "casa". Provavelmente uma alusão explícita à canção de Bob Dylan "Subterranean Homesick Blues", que diz: "Jhonny's in the basement mixing up the medicine, I'm on the pavement thinking about the government". Ao seu fim, inicia-se a mais desesperançosa música de que se tem notícia. “Exit Music (for a film)” dói. Na alma, nos ossos, nos olhos vermelhos, enquanto a letra implora, "Breathe, keep breathing". Seu final apoteótico assusta. Objetos cortantes devem ficar longe.
Após atingir o fundo, a montanha-russa de sentimentos sobe uma vez mais com “Let Down”. Emocionante, crescente, harmoniosa, ela revela um lado mais positivo do disco. “Karma Police” é um clássico. O anormal deve ser detido, já que deixa as coisas fora da ordem. A base do piano dá a cadência necessária para o desespero final de Yorke ao admitir que apesar de todos os seus esforços, não consegue encontrar o encaixe para passar no teste de normalidade.
Ao final de "Karma Police", a sirene sobrenatural distorcida pelo efeito Doppler exagerado dá lugar a "Fitter Happier", trazendo a voz inexpressiva e monotônica sutilmente introduzida ao fundo do refrão de "Paranoid Android" (ouça novamente a faixa 2: "What's that? [I may be paranoid, but not an android]"). As promessas introspectivas de cuidar melhor de si próprio, mas obviamente nunca cumpridas, entrecortada sublinarmente com ruídos e música de piano, é como se víssemos alguém sendo claramente hipnotizado, a ponto de confundir as promessas metálicas com as suas próprias. "Elecioneering" é uma canção que discorre sobre o vai e vem da política, e do poder da mídia, que nada mais é que um meio para divulgação da linguagem. Repare no clima festivo da melodia, única do disco com essa característica. Uma crítica à sociedade da época que continua valendo, travestida em um empolgante rock de guitarras rasgadas. É certamente o lado mais alto-astral do grupo neste lançamento de 97. Tudo para preceder a congelante “Climbing Up the Walls”, de refrão doce, mas que parece se perder em sua parte final entre distorções e leves efeitos eletrônicos.
“No Surprises” é minimalista ao máximo. Contradição? Possivelmente, a música mais triste do álbum, o principal instrumento é a voz de Thom Yorke e um clima quase infantil na junção dos demais instrumentos. A história de como uma vida dentro dos padrões pode acabar mal. Acomodar-se afinal de contas pra quê?
As duas últimas faixas de "Ok Computer" também são capazes da difícil tarefa de traduzir todo um álbum. As músicas “Lucky” e “The Tourist” são uma colagem de momentos de catarse e de sossego aparente, que se alternam quando bem entendem. Para o fim do disco, nada mais do que um barulho que vai sumindo, sumindo, sumindo.
O Radiohead abusou da liberdade para criar uma obra-prima. “OK Computer” é isso. Indispensável. Tal qual a verdade.
>Duas músicas que salvam a hora: "Paranoid Android" e "Karma Police"
>Para escutar: http://www.mediafire.com/?1xtbgb1bycz





