sábado, 5 de abril de 2008

Happy Mondays - "Pills 'n' Thrills and Bellyaches" (1990)

14.03.08
Contexto: em 1988 a Inglaterra viveu um "segundo verão do amor". A postura paz e amor foi substituída pela futilidade inconseqüente das boates de Manchester.
Mas o ponto crucial da mística ao redor desta cena era uma nova droga, o MDMA, uma pastilha de anfentamina anteriormente usada como afrodisíaco. Usando uma música do New Order para ser aceito pela massa sem o tabu da sigla médica, o ecstasy mais tarde ganharia sua própria sigla urbana - um simples E maiúsculo, código para as incursões anfentaminadélicas que a droga proporcionava.
O Happy Mondays era uma espécie de elite bastarda desta cultura. Embora fizessem parte dos personagens mais típicos e conhecidos da noite, eles eram briguentos e barulhentos, se embebedavam à medida que se drogavam, transavam nos banheiros e dançavam até cair. Misto de hooligans com b-boys, eles tinham até uniforme: tênis vagabundo, camisetas listradas na horizontal, franjas compridas e calças largas, baggy. Quando Tony Wilson, dono da Factory, descobriu que aqueles lunáticos tinham uma banda, não titubeou em contratá-los e fazer de tudo para que se tornassem uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Ou que ao menos fizessem o mesmo estrago de uma dessas.
O hedonismo setentista desbravado pelo Happy Mondays em seu principal álbum era o mesmo que originaria o Primal Scream, as raves campestres, Trainspotting, Boogie Nights e a redescoberta do funk e da discoteca. Mas eles não eram os únicos na cena. Da mesma Manchester sairiam os Stone Roses, os Inspiral Carperts e os Charlatans. Nascia o que seria chamado de “Madchester”, embora apenas os Mondays davam à essa alcunha a cota de loucura para poder ser chamada de "mad".
Para o terceiro disco do grupo, os produtores exatos - revelações das incipientes raves urbanas, os DJs Paul Oakenfolds e Steve Osborne encararam os Mondays de igual pra igual. Encharcados de drogas e com sexo saindo pelo ladrão, produtores e banda se enfiaram num projeto pessoal que mudariam suas vidas.
Esse álbum rompeu várias barreiras entre rock e dance music. Abre com "Kinky Afro", que tem como "base" a música “Lady Marmalade” (aquela do filme Moulin Rouge), do grupo La Belle. No mesmo esquema de apropriação, transformaram a música "He's Gonna Step on You Again", de John Kongos, em "Step On". Em "God's Cop", a segunda faixa, o vocalista Shaun Ryder pede a Deus que faça chover sobre ele pastilhas de ecstasy.
Musicalmente, o disco obedece à mesma infalível fórmula: guitarras psicodélicas como se fossem tocadas pelo Velvet Underground (ou pelo Jesus & Mary Chain), quilos de teclados legais usados com bom gosto (Hammond, piano, Fender Rhodes, tudo com um pé no soul), um tremendo groove de baixo (geralmente recauchutado pelo estúdio), uma bateria firme e fixa (que também recebia tratamento mecânico pelos dois produtores) e eventuais backing vocals e efeitos. As técnicas de produção seguiam tendências vindas de diferentes fontes: do dub jamaicano, dos DJs nova-iorquinos e de Detroit, das novas possibilidades do sampler (recém-lançado então) e da Stax. O caldeirão de suíngue dos Happy Mondays borbulha na temperatura certa em seu disco.
Poucos poderiam prever que o futuro pertenceria ao universo traçado pelos Happy Mondays em “Pills’n’Thrills and Bellyaches”. Talvez apenas eles mesmos soubessem.

>Duas músicas que salvam a hora: "Kinky Afro" e "Bob's Yer Uncle"

>Para escutar: http://www.mediafire.com/?0zw9qgy0yx2


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